sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Brasilidade na Maison & Objet, em Paris

Torre Eiffel, em Paris (Foto: reprodução)
O fio da cultura me traz à Maison & Objet, um dos mais importantes eventos internacionais do design e decoração. O convite me coloca na edição de Paris, no ciclo de conferências que entre os dias 22 e 26 de janeiro expõe o design que move o cenário mundial. Sob a perspectiva da criação pautada no entorno, na identidade local e no fazer artesanal carregado de minúcias, vou compartilhar com os designers Kenneth Cobonpue (Filipinas) e Gaël Manes (França) experiências que nos unem e nos tornam diversos - a um só tempo – pelo traço forjado nas nossas histórias e memórias.

Para esta conversa trago um elemento que aglutina e simplifica respostas às mais diferentes questões sobre o que inspira e reveste o meu processo criativo: a cultura é matéria-prima essencial. É o Brasil mestiço, da fusão dos povos colonizadores, que dá morada ao desenvolvimento das peças de mobiliário e decoração que sobrepõem forma e função com densidade simbólica. Bagagem material e imaterial resistente ao tempo e presente nas manifestações, artes e ofícios populares. A identidade brasileira é a bússola que orienta e sublinha o perfil do Estúdio com produtos que celebram o feito à mão, os saberes ancestrais, o calor humano, a regionalidade contida nas formas, cores e texturas.

Quero referendar como as técnicas artesanais revestem a nossa produção e como o Estúdio – de forma permanente - alarga horizontes e amplia contatos com artesãos que detêm saberes herdados de seus antepassados. O processo produtivo está alicerçado na troca de experiências. É mais que executar formas. Constitui uma imersão na realidade local, na atmosfera que envolve cada etapa com histórias de quem deixa na peça o olhar cuidadoso, o calor das mãos. O produto final é narrativa. Conta recortes da nossa formação social e histórica, exalta materiais do entorno e do cotidiano, ressuscita laços de pertencimento. A originalidade é a brasilidade, o valor patrimonial. 
A Maison&Objet é um dos mais influentes eventos internacionais do design e decoração.
A Poltrona Balão exalta a identidade regional e o feito à mão que pauta o conteúdo da nossa palestra.


sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Cenografia no tom da cultura

O algodão colorido é trama e tom da cenografia do Salão de Artesanato da Paraíba.


O algodão colorido orgânico é o fio condutor. A pluma que já nasce em tons terrosos empresta seu valor patrimonial à cenografia do XXIII Salão de Artesanato da Paraíba. O projeto idealizado pelo Estúdio Sérgio J. Matos faz uma intrincada tessitura de elementos que remetem à cadeia produtiva, desde os campos áridos do agreste do Estado ao fabrico de têxteis com representação expressa nos teares de engrenagem artesanal.

O ponto de partida conceitual da cenografia rememora o ciclo do “ouro branco” na história econômica e social do Nordeste, onde a Paraíba desempenhou papel de relevância no século passado. É o passaporte para adentrar no universo da recente ascensão do algodão colorido como símbolo de sustentabilidade e matéria-prima de produtos do novo luxo no mercado internacional. A inspiração está ancorada no valor patrimonial do produto - com certificação de Indicação Geográfica concedida pelo Instituto Nacional de Propriedade Intelectual (INPI) - e cultiva referências culturais, históricas e territoriais que o tornam genuinamente paraibano. 

A ambientação do hall de entrada convida a uma imersão na trama do algodão colorido. Fios entrecruzados revestem o teto e as paredes laterais e simulam uma grande peça têxtil recém saída do tear exposto na porta principal. No jogo de luz e sombra, manequins flutuam com a coleção da marca Natural Cotton Color. Na área de descanso, a atmosfera é a dos antigos armazéns de algodão. As sacas de plumas empilhadas dão vida a sofás e a iluminação intimista traduz aconchego.

Como em um caminho inverso ao da cadeia de produção, o roteiro do Salão termina na plantação imaginária do algodão, onde galhos vermelhos suspensos cobrem a praça de alimentação. É o espaço para as coisas que brotam da terra, que têm sabor de cultura e alimentam corpo e alma com histórias e saberes ancestrais. Coisas de gente genuína e de fibra, como o próprio algodão que dá o tom à cenografia do maior evento da arte popular na Paraíba. 
Manequins flutuam com coleção de roupas produzidas com o algodão colorido da Paraíba.
As sacas de algodão, como em um antigo armazém, dão vida aos sofás da área de descanso.
Na área de descanso as luminárias com fio de algodão colorido criam ambiente intimista.
Os galhos vermelhos suspensos no teto da praça da alimentação simulam campos de algodão.


quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

A força do feminino na floresta

Rosa Ayambo, da etnia Tikuna no Amazonas: artesã e guardiã da floresta. 
Sigo navegando no Projeto Brasil Original Amazonas. Ao fim de cada viagem repito o mesmo rito: desfaço bagagem, guardo aprendizados, arrumo memórias e desato reflexões sobre minhas andanças. Ainda tenho em mente o curso do Rio Solimões que recentemente me levou à cidade de Benjamin Constant. Na tríplice fronteira onde Brasil, Peru e Colômbia se confundem em linhas tênues da geografia, vi como estas nações se encontram sob o mesmo manto verde da Floresta Amazônica. Imponente, é o ponto de convergência que abriga o vigor e poder da natureza. É também, casa e fortaleza de mulheres guerreiras que com sabedoria ancestral tiram dela o sustento, a matéria-prima para o artesanato e acalantam sonhos com a mesma resistência das tradições e mitos que se propagam entre as gerações.  
    
A mais de 1.100 quilômetros de Manaus - depois de percorrer outras etapas do projeto pelo Alto Rio Negro - descobri que a floresta é habitada por verdadeiras divindades. Entre elas, Dona Rosa Ayambo, indígena da etnia Tikuna que vive na Comunidade de Porto Cordeirinho, em Benjamin Constant. Ela que afetuosamente presenteou a mim e a equipe do Sebrae Amazonas com um canto de boas-vinda, nos estendeu os braços, alargou o sorriso, apresentou as trilhas materiais e imateriais que conduzem às riquezas encerradas naquele território sagrado. Como conter a emoção diante de tanta generosidade? Impossível não se deixar hipnotizar e surpreender ante a alegria de alguém que aos 87 anos acorda às 5h da manhã para desbravar a floresta, cortar a fibra de arumã (palmeira alta e de difícil acesso) e retornar à casa no início da noite. Sou grato por estas lições, pela oportunidade de vivenciar cada detalhe destas experiências.

Fazendo este percurso onde design e artesanato se entrelaçam sob a aura da cultura original, percebo como a força do feminino marca a organização destas comunidades, semeia a essência da delicadeza e cultiva o respeito em conexão com a floresta. Elas atendem por Rosa, Neusa, Clementina. São de Benjamin Constant e Atalaia do Norte. Guardam a ancestralidade das suas etnias Tikuna, Marubo e Kanamary e acreditam na manutenção dos ritos e na força do trabalho. Usam cocares e pinturas corporais como símbolos de identidade e orgulham-se das técnicas ancestrais e do exotismo do feito à mão. São “amazonas”, guerreiras filhas da Terra e da Lua, retratos de um Brasil Original. Sou “curumim” e tenho muito a aprender com elas.  

[English Text]


The Feminine Power in the forest

I follow sailing at the Original Amazon Brazil Project. At the end of every trip, I repeat the same rite: undo my baggage, keep learning, fix memories and start reflections on my wanderings. I still have in mind the Solimões River, which recently took me to the town of Benjamin Constant. In the tri-border area where Brazil, Peru and Colombia are tenuous lines of geography, I saw how these Nations under the same green mantle of the Amazon rainforest. Impressive, is the point of convergence that houses the force and power of nature. It is also, home and fortress of female warriors who wisely take the ancestor livelihood for their own, the raw material for handicrafts and enhance dreams with the same strength of the traditions and myths that propagate between the generations.

More than 1100 km of Manaus-after walking through other milestones by the Rio Negro - I found that true deities inhabit the forest. Among them, Mrs. Rosa Ayambo, of the indigenous ethnicity Tikuna living in the community of Porto Cordeirinho, in Benjamin Constant. She, affectionately, presented Sebrae Amazonas and me with a welcome corner, we extended the arms, extended the smile, presented the material and immaterial tracks which lead to riches ended in that sacred territory. How to contain the excitement before this generosity? Impossible not to hypnotize and surprise to the joy of someone who is at 87 years old, wakes up at 5:00 in the morning to clear away the forest, cut the fiber of arumã (high and difficult to access) and return to the House in the early evening. I am grateful for these lessons, for the opportunity to experience every detail of these experiences.

Doing the route where design and craftsmanship are interwoven in the aura of the original culture, I understand how the female force marks the organization of these communities, sow the essence of delicacy and cultivates the respect in connection with the forest. They are called Rosa, Neusa, Clementina. Are from Benjamin Constant and Atalaia do Norte. They keep the ancestry of their Tikuna, Marubo, and Kanamary ethnicities, and believe in the maintenance of the rites and in the work force. Wear headdresses and body painting as symbols of identity and are proud of the ancestral techniques and exoticism of the handmade. They are "Amazon", warriors daughters of the Earth and the Moon, portraits of a Brazil Original. I am "curumim" and have much to learn from them.


Clementina faz do artesanato com matéria-prima da floresta geração de renda para a família.
Nas Comunidades indígens as mulheres preparam os ritos de pintura corporal.
Lado a lado com a artesã da etnia Tikuna e muito para aprender sobre a cultura ancestral. 

terça-feira, 10 de novembro de 2015

Descubra o Brasil Original

Barcelos, cidade às margens do Rio Negro, no Amazonas.

Há um Brasil a ser descoberto. O território de paisagens paradisíacas convida a outros ancoradouros com tons e matizes que se entrelaçam à riqueza da fauna e flora. É um Brasil Original - com a trama da miscigenação - onde sua gente é sua identidade, o maior patrimônio. Mistura de raças, enlaces de línguas, ecos de sotaques, profusão de ritos e tradições. Saberes, ofícios e heranças que o tornam ainda mais precioso.

Oxigenado pelo manto verde da floresta e banhado por rios caudalosos, o Brasil Original carrega digitais ancestrais. Está mapeado nas mãos de artesãos amazonenses que habitam comunidades indígenas e ribeirinhas das cidades de São Gabriel da Cachoeira, Barcelos, Manaus e Tefé. Homens e mulheres orgulhosos de suas origens culturais formatam na fusão do design com o artesanato objetos inspirados em recortes do entorno, elaborados sob a tessitura das histórias que transitam entre o real e imaginário.

A matéria-prima vem da natureza que os abraça: fibras vegetais colhidas, tingidas e entrelaçadas obedecendo memórias. Piaçava, uambé e tucum estruturam vasos, fruteiras e luminárias. Cada peça exalta o vínculo com a floresta na estética que evoca o cotidiano e as crenças seculares. Para além da forma e função, os objetos são códigos. Emitem o calor da execução, o brilho dos olhos de artesãos que sonham em alargar horizontes sem perder os laços de pertencimento. São elos. Unem a alma e o coração dos indígenas e ribeirinhos, aninham ancestralidade e narram o exotismo da cultura mestiça. A trama de força hipnótica revela uma gente de fibra, a raiz da brasilidade. Descubra.

[English Text]

Discover the Original Brazil

There are an undiscovered Brazil. The territory of paradisaical landscapes invites the other roads with shades and hues that intertwine the richness of fauna and flora. Is an Original Brazil-with the plot of miscegenation-where your people are your identity, a great asset. Mixture of races, languages, links from echoes of accents, profusion of rites and traditions. Knowledge, crafts and inheritances that make it even more precious.

Oxygenated by the green forest cloak and bathed by rivers, the Original digital loads Brazil ancestors. Is mapped into the hands of artisans people, inhabiting coastal indigenous communities and the cities of São Gabriel da Cachoeira, Barcelos, Manaus and Tefé. Men and women proud of their cultural origins in the fusion of design format with handicraft objects inspired by the surrounding images, drawn up under the stories that move between the real and imaginary.

The raw material comes from nature that embraces: harvested vegetable fibers dyed and intertwined obeying memories. Vases and lampshades are conceptualized with piassava, uambé and tucum fruit. Each piece celebrates the bond with the forest on aesthetic that evokes the daily lives and secular beliefs. Beyond form and function, the objects are codes. Emit the heat from running, the gleam in the eye of artisans who dream of extending horizons without losing the ties of belonging. It are linked. Join the heart and soul of the indigenous and bordering, nest ancestry and narrate the exoticism of the mestizo culture. The plot of hypnotic force reveals a people of fiber, the root of all things Brazilian. Discover.









quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Tempo de celebração no Estúdio

Equipe Estúdio Sérgio J. Matos: em festa com o aniversário de cinco anos.

A celebração é o que me move e agradeço ao tempo. Hoje, o Estúdio Sérgio J. Matos chega ao quinto ano de existência. Alcança esta marca abarrotado de histórias nutridas por sonhos, desejos e crença no Design que referencia identidade. A trajetória tem a singularidade das tramas tão presentes nas criações desta casa: ata laços, envolve memórias e resgata saberes ancestrais. Pontua a originalidade que contrasta com o universo tecnológico e exalta o luxo artesanal, em peças únicas que abrigam calor humano e valor patrimonial.

O Estúdio tem essa aura de tear. Não só pela estética dos produtos com assinatura têxtil, mas pela engrenagem que tece o fio da história e da cultura que transborda no caldeirão da miscigenação. Uma tessitura feita a muitas mãos, de forma colaborativa. O Estúdio não se restringe a um nome. É uma equipe e cada peça de mobiliário e decoração leva em sua essência um pouco de cada integrante. Da inspiração ao produto final são muitas etapas: é preciso pesquisar, esboçar, projetar, moldar, forjar, estruturar, soldar, tramar, pintar, embalar, conferir, despachar. Ufa! Há muita troca envolvida para fazer acontecer, para construir a imagem do design que busca afirmação pela identidade e densidade simbólica.

Toda a energia envolvida produz frutos. Vieram os prêmios nacionais e internacionais como o Design Excellence Brazil (Poltrona Balaio, Banco Xique-xique e Pufe Carambola, em 2011); if Product Design Award (Pufe Carambola, Alemanha, em 2012) e Be Open (2014). Traduzem o reconhecimento e impulso para seguir na rota da cultura como matéria-prima primordial. Neste cenário, a imprensa nacional especializada abriu portas, quis inteirar-se, acompanhar e dar visibilidade à participação do Estúdio no movimento que projeta o design brasileiro dentro e fora de suas fronteiras. Sou grato pela atenção, pelos espaços concedidos, por cada palavra elogiosa no roteiro dessa jornada.

A trama do trabalho também descortina caminhos para as consultorias. Uma vertente de transformação social no berço de comunidades artesãs incrustradas nos lugares mais longínquos. Através delas, o Estúdio lapida experiências fortalecidas na troca do conhecimento. A fusão do design com o artesanal esboça nosso horizonte e alarga a percepção para projetos assentados na herança dos antepassados. Até aqui o sentimento é de satisfação. O “tear” da criação alimenta o desejo de seguir entrelaçando memórias, emoções, histórias, sonhos e tradições. Nossa gratidão a todos que nos deram as mãos nessa urdidura.


[English Text] 

Time of celebration at the Studio

The celebration is what moves me and I appreciate the time. Today, the Studio Sergio J. Matos arrives in the fifth year of existence. Reach this mark crammed full of stories nurtured by dreams, wishes and belief in Design that references identity. The trajectory has the uniqueness of plots so present in the creations of this House: make ties, involves memories and rescue knowledge. Punctuates the originality that contrasts with the technological universe and exalts the luxury craft, in unique pieces that harbor human warmth and heritage value.

The Studio has this aura of loom. Not only the aesthetics of the products with textile signature, but by the gear that weaves the history and culture that overflows into the cauldron of miscegenation. A texture made by many hands, collaboratively. The Studio is not restricted to one name. It is a team and every piece of furniture and decoration takes in its essence a little of each. From inspiration to final product are many steps: search, sketching, designing, casting, forging, structuring, welding, screwing, painting, packing, checking, dispatching. Phew! There is a lot of exchange involved to make it happen, to build the image of a design that seeks affirmation by the identity and symbolic density.

All the energy involved produces gains. The national and international awards like the Design Excellence Brazil (Balaio armchair, Xique-Xique and Carambola Pouf, in 2011); If Product Design Award (Germany, Carambola Pouf in 2012) and Be Open (2014). Translate the recognition and impulse to follow the route of culture as raw material. In this scenario, the national specialized press opened doors, wanted to know, follow and give visibility to the Studio's participation in building the Brazilian design, both inside and outside its borders. I am grateful for the attention, spaces for each word in the script of this complimentary journey.

The plot of the work also reveals paths for the consultancies. A strand of social transformation in the cradle of impurities in the most far-flung craftswomen. Through them, the Studio teaches experiences strengthened by the exchange of knowledge. The merger with artisan design outlines our horizon and extends the perception for projects carried on heritage of ancestors. Until now, the feeling is satisfaction. The "loom" creating feeds the desire to follow intertwining stories, memories, emotions, dreams and traditions. Our gratitude to all who have turned their hands in this warp.
Pufe Carambola: prêmio if  Product Design Award - Alemanha 2012.
Banco Xique-Xique: prêmio Design Excellence Brazil 2011.
Projeto Brasil Original: consultoria através do Sebrae Amazonas às comunidades indígenas e ribeirinhas.
Poltrona Acaú na capa do Anuário Caras de Decoração 2015.
Produtos do Projeto Brasil Original no Anuário de Tendêncis da Casa Claudia 2016.
O Estúdio Sérgio J. Matos celebra cinco anos e materializa na criação a identidade brasileira.

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Indentidade brasileira nos esquis da Gioara


Esquis Gioara com grafismo "Pirarucu" assinado pelo Estúdio Sérgio J. Matos.

O Design sempre me impulsiona a desbravar novos horizontes, a saltar barreiras dentro do processo criativo e experimentar o novo. Ao aceitar o convite da revolucionária empresa italiana Gioara – fundada por George Gros e Chiara Ferrari - embarquei no "World Champion Ski - Project Glass", a primeira coleção de design e desporto assinada por um seleto grupo de designers italianos e internacionais. A edição limitada de esquis tem a curadoria da diretora de arte Paola Colombari e constitui uma mostra que acontece de 6 a 8 de novembro deste ano, no Allegroltalia Golden Palace, em Torino. 

Cada designer compôs grafismos para personalizar os esquis de vidro fundido elaborados com alta tecnologia. Os dois pares com assinatura do Estúdio Sérgio J. Matos levam a identidade brasileira à neve. Colhi inspirações da fauna e flora do Amazonas para celebrar ícones da região e difundir a cultura das comunidades indígenas e ribeirinhas. Quais são? O fruto da palmeira Buriti e a imponência do peixe Pirarucu, o gigante das águas doces. 

O vermelho vibrante se alastra no desenho tridimensional do esqui Buriti. Reproduz o padrão de escamas do fruto do buritizeiro, palmeira majestosa da Amazônia presente nos leitos dos rios, igapós e igarapés. A espécie que alcança até 35 metros de altura é chamada pelos indígenas da tribo Tapuia de “árvore da vida”. Reza a cultura ancestral que trata-se de um presente do deus Tupã para coroar a floresta. 

Para as pranchas do esqui Pirarucu, o grafismo repete o traço curvilíneo das escamas do “peixe vermelho”, tradução poética do nome indígena na língua tupi. Exibe o tom castanho escuro, iluminado pelo contraste dos contornos escarlates. Símbolo da Bacia Amazônica e protagonista de lendas que cercam as comunidades locais, o animal pode pesar mais de 200 quilos e medir até três metros. A pesca predatória com arpão quase o fez desaparecer e sua captura só é permitida em áreas de preservação como a Reserva Mamirauá, localizada às margens do Rio Solimões. 

Os dois projetos são revestidos, também, de escamas simbólicas. Referências que ressoam a mantos da nossa natureza exuberante, da cultura que resiste ao tempo nas lendas e crenças. Lâminas de abrigo para a identidade tropical que pode agora deslizar nas montanhas nevadas.


[English Text]


Brazilian identity in skis of Gioara

The Design always propels me to explore new horizons, to jump barriers within the creative process and try again. In accepting the invitation from the revolutionary Italian company Gioara-founded by George Gros and Chiara Ferrari-embarked on the "World Champion Ski-Project Glass", the first collection of design and sport signed by a select group of Italian and international designers. The limited edition skis has the curatorship of Art Director Paola Colombari and constitutes a show which takes place from 6 to 8 November this year, the Allegroltalia Golden Palace, in Turin.

Each designer composed their artwork to customize the skis made of fused glass and produced with high technology. The two pairs with the Studio's signature Sergio J. Matos led to Brazilian identity to snow. I picked inspirations of the fauna and flora of the Amazon to celebrate icons of the region and spread the culture of the indigenous communities and riparian. Which are? The fruit of the Palm tree buriti and the grandiosity of Arapaima fish, the giant of fresh water.

The vibrant red spreads in three-dimensional drawing of the Buriti skiing. Reproduces the pattern scales of the fruit of buriti tree, majestic Amazon Palm tree present in riverbeds, flood lands and creeks. That species reaches 35 meters in height and the indigenous tribe Tapuia calls it, "the tree of life". According to ancestral culture that this is a gift from god Tupa to crown the forest.

For the ski boards Pirarucu, the design repeats the curved dash the scales of the "red fish", poetic translation of the indigenous name of Tupi language. Displays darker brown tone, illuminated by the contrast of the Scarlet contour. Symbol of the Amazon basin and the protagonist of legends surrounding local communities, the animal can weigh more than 200 kilos and measure up to three meters. Predatory fishing with gaff almost made him disappear, but his capture is allowed only in areas like the Mamirauá Reserve, located on the banks of the Solimões River.

The two projects are also symbolic scales. References that resonate the mantles of our exuberant nature, culture which resists time in legends and beliefs. Blades of shelter for tropical identity can now slide in the snowy mountains.


Esquis Gioara com grafismo "Buriti" desenvolvido pelo Estúdio Sérgio J. Matos.
O peixe Pirarucu é símbolo das águas amazônicas e integra a cultura das comunidades ribeirinhas.
O padrão composto pelas escamas rígidas do Pirarucu é inspiração para um dos grafismos.
O buritizeiro alimenta através do fruto e da palha a geração de renda para artesãos do Amazonas.
As escamas escarlates do fruto do buriti estão no grafismo dos esquis Gioara. 
Designers italianos e internacionais assinam as peças da mostra pioneira.


quinta-feira, 10 de setembro de 2015

A sabedoria dos povos da floresta

No Amazonas a floresta abraça e nutre a cultura dos povos indígenas.
Nas minhas andanças pelas comunidades artesãs do Amazonas, o que mais me fascina é a cultura dos povos indígenas e ribeirinhos. Habitantes dos rios e das florestas, eles carregam histórias e crenças cultivadas ao longo de gerações. Para além dos saberes ancestrais que os tornam mestres nas artes de tecer, trançar, tingir e esculpir, é a simplicidade aplicada à vida cotidiana que desperta em mim uma admiração profunda.

É um privilégio, através da consultoria ao Projeto Brasil Original Amazonas, adentrar nas comunidades e testemunhar a rotina, mergulhar nos afazeres que põem comida à mesa, perceber a produção artesanal transformada em renda para a manutenção das famílias. Em cada etapa do meu trabalho, não me canso de surpreender com os hábitos, as lendas, a fé, os ritos, a reverência à natureza. É, verdadeiramente, um presente conhecer artesãos como o José Garcia, da etnia Kuripako. Seu sorriso sincero e espontâneo, sua simplicidade cativante que me abriu as portas da sua casa na Aldeia Areal, em São Gabriel da Cachoeira.

No curso do Rio Negro, o Projeto Brasil Original Amazonas me permite navegar em sentimentos que estão distantes das aldeias urbanas. Há uma atmosfera mais leve, propícia à sinceridade e espontaneidade. Tudo vem da alma, do coração. Da viagem que acabo de retornar, visitei a Pedra dos Desejos, lugar sagrado em São Gabriel da Cachoeira para os indígenas da etnia Baré. Com os pés firmes no lajedo, mentalizei boas energias e pedi a sabedoria dos povos assentada na simplicidade.


[English Text]

The wisdom of forest folk

In my wanderings by artisans of the Amazon, what fascinates me most is the culture of indigenous peoples. Inhabitants of rivers and forests, they carry stories and beliefs cultivated over generations. In addition to the ancient knowledge that make them masters in the arts of weaving, braiding, dyeing and carve, is simplicity applied to everyday life that awakens in me a deep admiration.

It is a privilege, through the consultancy of the Original Brazil Project, going into communities and testify the routine, diving in the activity that brings the food to the table. I realize the artisan production transformed into income for the maintenance of families. At each stage of my work, I never tire of surprising with the habits, the legends, the faith, the rites, and the reverence for nature. It is, truly, a gift to meet artisans as Jose Garcia, of the Kuripako ethnicity. His smile is sincere and spontaneous, its captivating simplicity who opened the doors of his home in the Aldeia Areal, at São Gabriel da Cachoeira.

In the course of the Rio Negro, Brazil Amazon's Original design allows me to navigate in feelings that are far from the urban villages. There's a lighter atmosphere, conducive to the sincerity and spontaneity. Everything comes from the soul, the heart. The journey that I have just returned, I visited the 'Rock of Wishes', sacred place in São Gabriel da Cachoeira, of the indigenous Baré ethnicity. With sure-footed in lajedo, realized good energy and asked for the wisdom of the people seated on simplicity.
A produção da farinha de mandioca integra a rotina da Comunidade Areal, em São Gabriel da Cachoeira.
Pedra dos Desejos: lugar sagrado para a etnia Baré.
Acolhida pela familia do artesão José Garcia. 
Base de trabalho do Projeto Brasil Original Amazonas.
Alto Rio Negro: rota de cultura no Projeto Brasil Original Amazonas.

terça-feira, 18 de agosto de 2015

Cadeira Trancelim: o design faz a dança dos fios


A trama artesanal é intrínseca à nossa criação. Constitui uma assinatura com o calor do feito à mão e o selo da originalidade. Traz força e poesia à estética de produtos ricos em narrativas que permeiam a cultura brasileira. Essa urdidura marca o desenho da Cadeira Trancelim e a reveste de simbolismos conectados às celebrações populares que resistem ao tempo como registro da larga influência colonizadora. Expõe um recorte da formação social do país presente nos regionalismos de Norte a Sul.

A forma cônica da peça aglutina em aço e corda naval referências da dança homônima (também batizada de Pau de Fitas) típica das manifestações populares que no período junino invadem ruas e terreiros das cidades cearenses de Barbalha, Crato e Juazeiro. A coreografia que resulta no entrelaçamento de fitas coloridas em um mastro central surge reproduzida no ir e vir da trama abraçada à estrutura metálica. Os participantes – homens e mulheres – estão subentendidos no baile dos fios que seguem o ritmo das mãos do mestre Geraldo, artesão do nosso Estúdio. A originalidade expõe o luxo do feito à mão, com assento no patrimônio imaterial.

[English Text]

Trancelim Chair: design makes the dance of wires

The handmade woof is intrinsic to our creation. Has a subscription with the warmth of handmade and the stamp of originality brought strength and poetry to the aesthetics of products, rich in narratives that pervade the Brazilian culture. This warp marks the design of Trancelim Chair of symbolism connected to popular celebrations that resist as wide record colonizing influence. Exposes a clipping of the social formation of the country present in regionalism from North to South.

The conical shape of the piece brings together  steel and naval rope like a dance of the same name (also called 'Stick Tapes'), typical of popular demonstrations in the streets in junino season, of the cities of Ceará like Barbalha, Crato and Juazeiro. The choreography results in the intertwining of colorful tapes in a central pole, rise in the center, reproduced on the coming and going of the plot held the metal structure. The participants -men and women- are subtext at the ball of wires that follow the rhythm of the hands of the master craftsman Geraldo, artisan of our Studio. The originality exposes the luxury of handmade, with a seat in the intangible heritage.

Trama Artesanal
Identidade


Originalidade

      Inspiração na Cultura Popular
"Pau de Fitas", pintura de Mauro Pereira - Mausé  


quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Tempo de colheita no Brasil Original

No vaso Casco de Jabuti, de piaçava,  a menina Andréa espelha a alegria das comunidades artesãs.
É tempo de colheita. Ao longo de meses de trabalho semeamos a fusão do design com o artesanato e o Projeto Brasil Original Amazonas, ação do Sebrae/AM com consultoria de nosso estúdio, agora frutifica. Das terras fecundas às margens do Rio Negro - abraçadas pelo verde da Floresta Amazônica e habitadas por gente tenaz - os frutos têm sabor de identidade. Objetos inspirados na natureza majestosa e elaborados com fibras vegetais do entorno exaltam o feito à mão, os saberes ancestrais, o calor humano, a regionalidade e os laços de pertencimento.

Vasos, luminárias e fruteiras revelados hoje em São Paulo, na abertura da Paralela Gift – Feira de Design e Decoração são mais que estética e função. As inspirações tão próximas do cotidiano dos artesãos (como a folha de Uambé e a Vitória-régia) carregam valores simbólicos e extravasam sentimentos. Contêm o calor das mãos de quem as executou; as histórias herdadas; o olhar atento; as expectativas e sonhos que atam o futuro das comunidades indígenas e ribeirinhas envolvidas. São frutos concretos do projeto idealizado para enaltecer sustentabilidade e promover a inserção do design inovador em harmonia com as tradições.

Sou grato por fazer parte dessa história, dessa trama de futuro. A consultoria ancorada nos municípios de São Gabriel da Cachoeira e Barcelos foi forjada na ideia de fortalecer a vocação artesanal e colaborar para a manutenção do patrimônio imaterial. Uma rota que conduz ao espírito vigoroso do empreendedorismo que abastece a Economia Criativa. A riqueza do produto final celebra a herança dos antepassados, afaga a autoestima e projeta a transformação social sem apagar as digitais da originalidade. 

[English Text]


Harvest season in Original Brazil
It is harvest season. By the passing months of work, we make the fusion of design and handcrafting, at the Original Brazil, Amazonas Project, an action of Sebrae/AM with the consultancy of the studio, now it fruits up. From the fertile lands to Negro River borders - embraces by the green of the Amazon Forest a habituated by tenacious people - the fruits have a flavor of identity. Objects inspired by majestic nature, elaborated with vegetal fibers from the surroundings exhibit the handmade, the ancestral knowledge, the human heart, regionalism and bonds of belonging.

Vases, lamps, and fruit baskets revealed today in São Paulo, at the opening of Paralela Gift - Design & Decoration Fair are more than aesthetics and function. The inspirations so close to the everyday life of the artisans (like the leaf of Uambé and Vitória-régia) carry symbolic values and go beyond feelings. Contains the warm hands from who executed them; the inherited stories; the watchful eye; expectations and dreams ties the future of indigenous and riverside communities involved. It is a concrete result of project idealized to praise sustainability and promote the insertion of innovative design in harmony with the traditions.

I am grateful to be part of this history. The consultancy anchored in counties like São Gabriel da Cachoeira and Barcelos forged in the idea of strengthening artisanal vocation and collaborates to the maintenance of immaterial patrimony leads to a vicious spirit of entrepreneurship that supplies the Creative Economy. The wealth of final product celebrates heritage of ancestry, strokes self-esteem and projects the social transformation without erasing digital prints of originality.
A artesã Gilda exibe orgulhosa o vaso Uamberawa. 
Luminária Kuripako: execução de José Garcia.
O exotismo da fruteira Uambé elaborada pelas mãos de Estela.